sexta-feira, 1 de junho de 2012

Crônica da moça perdida



Em casa, as crianças aprendem que o sucesso são as marcas, aprendem que existem carreiras em alta! Que eles precisam sobreviver. Aprendem que: Arte menino!! Isso é coisa de bicha! E é banal! Isso não tem propósito no nosso tempo meu filho! A arte já atingiu limites sua boba! Da Vinci foi um gênio que não existe mais! Van Gogh morreu louco! Cazuza morreu de AIDS! Elis de overdose! Morrer?? Pra que?

Eu. Sou louca (sinônimo de pensamento livre). Se dentro dos meus conceitos de eternidade, me perguntassem antes de vir: Erika, você vai lá embaixo, você vai voltar no tempo e vai renascer na alma de Van Gogh, você não vai ter o poder de mudar nada que ele fez, você vai ter só que sentir, viver, sofrer e morrer como ele...você quer descer? Eu desceria! Eu pintaria seus quadros, eu cortaria sua (minha) orelha, e morreria louco. Mas eu viveria essa experiência.

Eu acho que estudei pouco. Não li grandes filósofos. Do pouco que ouço de alguns, me encontro modestamente em alguns raciocínios. E a minha resposta bem simples para essa identidade é: Sempre pensei muito. Estou errada. Não quero ser ignorante. Não me justifico por minhas mazelas. Sei que das “vezes que cheguei atrasada”, eu simplesmente cheguei atrasada por motivos que não eram para me servir de desculpa: Eu sei os caminhos, eu sei que o rush existe, eu conheço como ninguém as eventualidades. Mas muitas vezes eu não cheguei. Muitas, muitas vezes mesmo, eu desisti antes de chegar, muitas vezes eu cheguei e vi que não era aquilo que eu queria  ou saí de fininho, ou saí correndo, ou me desesperei. Mas eu quero me perdoar, nunca me justificar. Entendo agora, que todas as minhas perdas, principalmente as materiais, ou todos os caminhos que não cheguei ao fim, são fruto da minha total incapacidade de transitar de minha razão para minha emoção. Eu sei, que todos os dois lados, são muito fortes em mim, mas eles não conseguem conversar, eles não sabem negociar.

Quando me lembro de minha infância, me lembro de uma criança que ia excepcionalmente bem a todas as disciplinas escolares. Estudei nas melhores escolas e tive pais que me ensinaram o que é liberdade de uma forma que pude avaliar todos os ônus e todos os bônus que essa liberdade me concebeu. E eu mesma não sei dizer em que ponto em que minha razão e minha sensibilidade começaram a brigar. Tudo que sei, é que tive diversos motivos sim, durante a passagem da adolescência para minha vida adulta, em que os acontecimentos eram tão intensos, tragédias na acepção mais comum da palavra, ocorreram e os diversos caminhos que eu tinha com relação as minhas vocações, se multiplicaram em milhares de dúvidas que, se por momentos, minha razão tentava me orientar para um desses milhares onde eu poderia ganhar dinheiro, ser doutora, matemática ou outra coisa qualquer com grande conhecimento, minha emoção começava a gritar para escrever, para pintar, para não me preocupar com a matéria, para eu dizer um foda-se para o sucesso...e eu dizia. Não sei ainda por que. Não sei ainda como consertar esse diálogo.

Sei que tem momentos que eu poderia dizer até que sinto fisicamente essa briga interna. Sinto essa força. Sei que ela é grande e sei que ela pode fazer de mim uma louca ou alguém com uma sanidade diferenciada. Sei de certa forma traçar meus pontos fortes e fracos. Sou inteligente. Raciocino acima do normal. Consigo bloquear interferências, isso pode ser bom, por que minhas noções de justiça são limpas, difícil contaminar minhas idéias, fácil melhorá-las, mas difícil contaminá-las no sentido de que sempre tentei refletir onde está o pensamento da massa e sei onde está o meu. O que eu achava ser meu ponto forte, sei que é minha fraqueza: Não sei fingir. E quando busquei meus conceitos de “fingimento”, talvez eu tenha sido sim contaminada. Mas o fato, é que se já precariamente entendi o que são as máscaras que vão me possibilitar a EXIBIR só o que eu quiser de mim, eu tenho quase certeza, é que tudo que está aqui dentro brigando, é bem diferente do que podem esperar de mim, e muitas dessas máscaras sociais que eu deveria aprender a incorporar, talvez em mim inexistam...

Be on the surface




Brinquemos sempre na beira do mar, onde todos estão e compartilham das mesmas realidades... Quando eu tinha 6 anos, eu me afoguei, vi um raio de uma latinha e fui atrás dela, só me lembro da visão do sol por debaixo d’água, quando a onda vinha e me levava mais para baixo, e do medo estúpido de um tubarão comer meu pé...obviamente, como estou aqui lhes escrevendo: fui salva, mas, isso é verdade e julguem como quiserem: passei alguns meses, que todas as vezes que eu entrava no banho, eu ouvia gritos e vozes, não quero explicar isso, pois eu mesma ainda não cheguei a uma conclusão, e minhas suspeitas estão longe de serem reais.

Mas, no decorrer da minha vida, me dispus a fazer alguns outros mergulhos, esses sim em minha alma, que confesso: não sei se consigo me encarar. Pois, com certeza vos digo: o quão mais profundo é o mergulho na tentativa do auto-conhecimento, mais difícil é retornar para a realidade.

Para conviver, é triste, mas deixamos de existir...e todas as regras que nos introjetam desde a infância, fazem com que nossa existência deixe transparecer apenas o dedo mindinho de quem realmente somos.

Sim, fique na superfície, só ele te protege de você mesmo. Olhar a lagoa do lado raso é sempre mais seguro, nela você reconhece tudo que está a sua volta.

Não, nunca mergulhe em sua alma, ela foi feita e está escondida nas suas próprias profundezas, justamente por que você não tem o poder de sustentá-la, ou quem sabe suportá-la.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Incompleto



Sou uma das pobres coitadas que se crê vítima do tédio...Minha natureza , assim como provavelmente a sua, é covarde de nomeia culpados para sua incompletude .

Desesperada, exploro minha imagem, pra tentar descobrir a parte mutilada...não encontro! Mas sinto, como se tivesse um braço decepado... um membro ausente, que faz com que eu passe dias e dias juntando nuvens, éteres, organismos ou bodes expiatórios para modelar como barro, o que falta em mim...inutilmente, pois desconheço a natureza desse órgão ou sentido.

Talvez capturar, se apossar de indivíduo alheio, promova uma ilusão de que esse vazio foi lacrado. Acho até, que o prazer sexual pode nem existir, ele é a ilusão agradável de que a parte fugitiva retornou, gerando segundos do estado que permaneceríamos caso fôssemos completos.

Mas são segundos...e quando ele se vai, batalhamos com essa provável, e muito cara metade, para que ela conforme-se em ter dono, mas sequer a ilusão dessa propriedade, aplaca o tédio.
Então, engolimos, consumimos, vestimos, tomamos posse, desbravamos...abraçando metas sem sentido para tentar ocupar nem se sabe o que...

O pior de tudo: O parceiro é o pobre culpado, por não ter o poder divino, ou biológico, de suprir vazios...talvez inexoravelmente impossíveis de preencher...

Natureza Morta



Recebemos  dois presentes, um  que  liberta e um consome...um são os pensamentos, que se sentem pássaros rodopiantes, outro é onde eles pousam:  o corpo,  essa gaiola penitente.

Dizem que um maravilhoso mestre dos céus, trouxe a vida de presente...esse breve espaço onde mesmo estando, nos sentimos ausentes..

Não somos dignos  de pairar revoadas, acompanhar manadas, estar em terras povoadas...empatizamos com a célula ainda não animada, protozoários inertes, átomos rodopiantes,  buracos negros, vórtex errantes. Pensamos  tanto que nos  identificamos com irracionais “impensantes”.

Eu só sei que não sei da nada, pois pouco me importa todo movimento dessas terras sob as pessoas paradas, diz-se por aí, que nossos restos ficam nessa base de crostas como covas, sendo elas inertes depósitos mortos  de nossos restos.

Não! Isso eu sei! Somos nós tanto o resto quanto a cova! O martírio e  o sepulcro, o enterro da natureza,  somos o cemitério da energia que se estagnou, crentes que somos os responsáveis pelo Universo que se expandiu. Somos apenas a matéria que não vingou.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Robô ou Louco




Um grande mestre,  escreveu um dia para o irmão, contando que tiraria proveito de sua melancolia...tirou, e cedo partiu mesmo assim, de um tiro...creio que qualquer caminho que ele tomasse, o levaria cedo ao fim, pois sua tristeza se consolidaria em uma doença se ele não a jogasse em seus quadros.

Ele é um dos que me ensinou que felicidade pode ser melancolia, dito que não é simples sinônimo de sorrir, sim de plenitude. Da mesma forma que determinados desmazelos físicos são irreversíveis, determinadas condições humanas, individuais, também. Nunca obrigue alguém a sorrir, nunca subestime o poder da dor daqueles que a tem costurada em suas vísceras. Nunca, mas nunca diga para essa pessoa, que ela não é digna do sucesso. Não tente bater na sua porta aos domingos, com um folheto de como alcançar o céu, muito menos com um livro de auto-ajuda.

Adequar mazelas à vida é assunto de acessibilidade... você se importa de como os cegos tem acessos aos ônibus, se todas as raças tem direitos iguais, se a medicina curará as doenças...saiba que os que não sorriem, precisam viver e também são belos. Caso você não compreenda o que estou dizendo, talvez seria um dos que não comprou um dos quadros de Van Gogh... Lembrem-se dele toda vez que não respeitarem ou compreenderem “diferenças”, que não é pertinente apenas ao âmbito físico. Estaremos perto de sermos  tolerantes, quando enxergarmos que não respeitamos sequer diferenças emocionais, condições intelectuais, nuances psicológicas diferentes dos padrões estipulados.

Ainda vivemos em uma época em que se acredita que “felicidade” é uma condição e um conceito para conseguir um bom emprego, e se resume "felicidade" como um gráfico de interseção entre os risos que o sujeito dá e sua capacidade de resiliência. Me pergunto como ser resiliente a um falso amor, a um “não desejo”.

Acredita-se que o misto de palhaço e robô produz mais. Talvez estejam certos: para produzir coisas inúteis em escala são necessárias essas características...para ter uma vida longa, também.




TPM




Minha alma explode anseios femininos interferindo no meu corpo, e minhas veias latejam gritando para eu morrer dramática como meus ancestrais italianos...que essa parcela do meu sangue me mantenha quente e que  me traga sempre meus constantes arroubos de irracionalidade que me mantém sã.

Sim, essa COISA, sou eu, e não luto mais contra isso, pois a lua que se esconda quando me trouxer sua magia, quase histérica, aquele raio que nos atinge sob a desculpa de menarcas, puerpérios, climatérios ou quaisquer fisiologias que justifiquem meus momentos bicho.

Você que reclama, não queira me conhecer sem meus dramas, sem crises ou momentos de simples dor... minha inconstância constata e possibilita a vida, pois ela é simplesmente a parada na estrada, o respiro para continuar a caminhar, o desalinho se alinhando, o desequilíbrio reequilibrando ou quem sabe a busca de uma dose de fisiologias delirantes, drogas naturais... adrenalinas artificiais...que tornam esse mundo melhor.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

O valor da fantasia



Eu quero acordar
E ver sumir o teto,
E ao por os pés no chão
Sentir ele de grama repleto
E respirar cheiro de dama da noite
Com os raios de luz no meu lençol
Ver o rosto dos meus filhos
No lugar do sol
Escolher que idade terão nesse dia
E conseguir ser integralmente bacana
Bagunçar tudo e com eles brincar de cabana
E poder voltar nesse momento
Eternamente 1 vez por semana
Eternizar
Muitos tubos de tinta
Espalhados pelo meu lar
Na sala castelos de areia
Que nunca vão desmanchar
Uma mesa cheia de moedas de ouro
Que eu nunca gastaria
Pois nada compra, destrói ou corrompe
O valor da minha fantasia

Baby Boomers



Engraçado é que esse era o principal bordão do meu pai: -Erika! Faça o que eu digo, não faça o que eu faço! Com o passar dos anos compreendi essa frase como o símbolo principal do falso-moralismo. O fato é que creio que a anti-educação dele deu certo...Certo? Sim, aprendi a não dormir em travesseiro de pedra.
Apesar das perdas, apesar de já ter compreendido que os louros não chegam em moedas de prata... aprendi que a vida não é um escambo. Que não devemos “ser bons” objetivando recompensa, objetivando nada. Aliás, sequer devemos ter a pretensão de que dominamos os conceitos de “certo e errado”, se esse conceito existisse, não seria nos dado o livre arbítrio que nos dá acesso na verdade a mais de dois caminhos.
Quando meu pai estava para morrer eu ficava de mãos dadas com ele o tempo todo, e tentava falar de Jesus. Um momento ele chorou muito e com raiva disse que não merecia o que estava passando, eu respondi que vários morreram "sendo penalizados" e sem ter culpas, então pedi que ele parasse de buscar um motivo para a dor... ele me disse que a dor dele era a maior de todas. Eu não consegui acalmá-lo, mas ele me fez  jamais pensar em Jesus, ou quaisquer religião apartir desse momento, e passar a pensar apenas nos homens e suas mazelas.
Ele era gerente de treinamento do Serpro, foi ele quem implantou a gerência de recursos humanos nessa entidade e eu nem tinha noção disso, quando um colega dele me disse que o projeto que ele implantou modificou e fez crescer essa instituição, mais ou menos o que o Lula fez na indústria metalúrgica e se tornou presidente, meu pai fez, ninguém nunca ouviu falar dele, e morreu em péssimas condições, como muitos que se foram nesse país, muitos amigos dele... os tais da geração Baby Boomers...muitos morreram como mastodontes sem presas, pois aprenderam a sentar e comer, mas não aprenderam a caçar. Na época em que “desemprego” soava tão mal quanto “câncer”.
Eu ficava sentada na mesa, vendo ele desenhar as transparências, com pirâmides de Maslow e livros de Peter Drucker espalhados na mesa. Meu professor. Mortes sem objetivo? Kamikazes involuntários para uma sociedade onde seus filhos não ficariam mais sentados sobre a estabilidade. A estabilidade que debilitava os cérebros e a liberdade de pensar. A falsa segurança, talvez até a falta de fé.
Os pobres não são lembrados e jazem como adubo sob os nossos pés.  

Eu não reciclo



Sim, é verdade: Eu não reciclo meu lixo!
“A paz mundial” e “reciclo meu lixo” são atitudes que as misses conseguiram disseminar para o resto da humanidade. Perguntem a 100 pessoas, de que forma elas contribuem para o planeta e 70% responderá: reciclo meu lixo!
O mais curioso, é que dessas 100 pessoas, as 70 que reciclam, são as que mais CONSOMEM. Perguntemos a elas, se cogitam DIMINUIR O CONSUMO DE SEU LIXO.
Reciclemos nossas idéias: De onde vem tanto lixo? Refutemos a idéia de passar a viver sem ele. Educação. (Do tipo daquela que faz parar até um indigente joga um papel de bala no chão, não, ele sequer consome). Digo educação dos valores de consumo. O que fazer se nossos heróis modernos são as marcas?
Pois o lixo já foi casca, já foi pedra, metal...papel, discos de vinil, até palavras já foram lixo: sobravam...o que sobra hoje? Sobra matéria. Matéria plástica, matéria tóxica...matéria, matéria, matéria....Mãe!!! Você cogita ensinar ao seu filho valores humanos, doação, fraternidade, divisão? Isso é muito difícil não é mesmo? Mais fácil comprarmos as lixeirinhas (de plástico), cada uma de uma cor para salvar a humanidade.



Gente Singular



Não sei se dói, ou se apenas estranho o fato de não sentir mais alegria ou prazeres no que era habitual para mim.
Crescer, no sentido apresentado como social, não me interessa, e se, por um tempo fingi me preocupar com cotidianos, talvez para manter minha sanidade mascarada com roupas sociais aceitáveis, hoje, atingi o que considero meu ápice: “cago e ando”. Não há alegria nisso...essa sou eu, por debaixo de tudo que me fizeram aprender ou ser.
Eu pari minha filha, e só assim entendi que mais amplo do que a normalidade, é a singularidade. E só há dois caminhos para a singularidade: a escolha ou a fatalidade.
É como um prazer dolorido, são quase sádicas as visões que passei a vislumbrar depois que arranquei meus olhos, e por baixo destes, novas órbitas me mostram outros significados de coisas que eu achava banais ou muito importantes. Tudo material passou a ser feixe, ilusão, impressão, etéreo...e os sentimentos, as dores, as saudades, os amores, passei a perceber como o que há de concreto,
Sim, essa inversão já teve em mim o peso de uma deficiência.
A transcrição dos meus sintomas talvez configurassem caso de internação para alguns “doutores”, que hoje entendo...aprenderam a ser um imenso cordão de isolamento, o front da guerra contra as diferenças, portando dicionários e compêndios para classificar as aberrações humanas, cuja sociedade precisa ser poupada do convívio.
Aquelas pessoas...que tem vontades, desejos, dificuldades ou costumes que não estão transcritos nos parâmetros da normalidade, por isso vão ser incluídos em listas de síndromes de nomes estranhos, sejam essas síndromes já descobertas e comprovadas em hélices de dnas defeituosos, ou síndromes que, ainda inexplicáveis ou incomprovadas.
Gavetas mais fáceis de armazenar nossas mazelas, essa qualificação também facilita a escolha do remédio a ser indicado, ajuda também, que nós mães, nos conformemos com o laudo que PROVA que nosso filho não passará de um autômato, afinal de contas, nós também sempre fomos...assim como nossos filhos que não necessitaram ser enquadrados, não enxergam que o limite da indiferença está um passo antes da linha da tolerância, sequer sabemos o que há do outro lado, mas com certeza, é um mundo melhor.

O menino e o pânico



Um menino tomou um tombo em um terreno, onde vários outros brincavam de estilingue, durante a noite, brincando de acertar as estrelas, ele se machucou um pouco, e assim que levantou, um dos meninos perguntou: Você quer brincar de estilingue? Ele disse: Não! Eu tenho que ir para minha casa...foi embora.
No dia seguinte ele passou pelo mesmo lugar, tomou outro tombo e desta vez quebrou a perna. O outro menino, não tendo percebido que ele quebrou a perna, repetiu: Você quer brincar de estilingue? Ele disse: Não, dessa vez me machuquei muito! E eu não me lembro por que, mas eu tenho que ir para minha casa, eu nem sei o que estou fazendo aqui... e foi novamente embora.
No terceiro dia, ele insistiu e passar pelo mesmo lugar, insistiu em ir mesmo com a perna engessada. “–Cada vez em que eu passo nesse terreno eu me sinto pior, mas ele é caminho para a minha casa.” Tomou outro tombo, vieram todos ajudar por que foi mais grave, nem tinha como o outro menino perguntar se ele queria brincar, mas ele ajudou a levá-lo para casa.
No quarto dia, o teimoso insistiu em voltar no mesmo lugar, com auxílio de uma muleta, e sua muleta quebrou...ele não queria nem mais se levantar, mas o outro menino falou: Espera que eu vou consertar a sua muleta! Ele consertou e assim foi o menino da muleta para casa.
Ele tirou o gesso, e continuou precisando da muleta, mas todos os dias seguintes ele insistiu em ir ao mesmo campo, com a muleta, quando outro menino perguntou: Será que você precisa de muleta? O menino disse: Preciso, eu já tomei muitos tombos ao passar por esse terreno! Mas seu novo amigo, também teimoso, tomou a muleta de suas mãos e ele balançou mas não caiu! E devagar conseguiu andar!
Passou pelo terreno mais um dia andando, e o menino o chamou para brincar, e ele respondeu: Dessa vez eu vou!
Deram o estilingue e o fizeram olhar para o céu. Ele armou o estilingue, puxou o elástico, e na hora em que ele olhou para o céu, ao invés de ver estrelas, viu vários meninos de asas.
Não atirou, por que ele lembrou que ali naquele terreno ele começou a andar, e começou a andar por que a muleta quebrou, e ele usou a muleta por causa da perna quebrada, por que quebrou a perna após ter caído dos céus ao ser atingido por uma pedra, e que antes desse tombo , ele sabia voar.


Vovó



Um pequeno ser faz aflorar essa magia, o perceber o mundo de outra forma, olhar para o nascimento com delicadeza, olhar recém-nascido não como “um grande compromisso” da maternidade, mas com a simplicidade e fragilidade da vida.
Os filhos já foram criados, e lamentamos por todos os momentos que já se foram com eles, e os momentos que, na pressa do viver, deixamos esvair entre nossos dedos.
A avó não conta os dias para ele andar, falar, entrar para a escola... ao contrário, torce para o tempo andar devagar, nesta torcida, percebemos que ele, o tempo, não é tão imperdoável, e nos trás a oportunidade de simplesmente contemplar. Isso, contemplar... é isso que o neto nos ensina: que mesmo quando éramos apenas mães, deveríamos ter aprendido a contemplar a vida como um broto de planta.
Nesta contemplação, que hoje compreendo ter também ter recebido de minha avó, o amor e o bom exemplo nascem como poesia impensada, como os versos não calculados dos melhores poetas, esses versos recebi dos meus avós e só agora eu os entendo. Dentro desses versos, toda dor e qualquer matéria perdem os por quês...Por que perder tempo? Pra que? O abismo que surge ao se deparar com essa realidade, é oprimido por mãozinhas e pezinhos minúsculos, que você não pensa como vão ser quando crescer.
Não dá para explicar a “voternidade”, vou tentar...aprender a olhar descartando as paredes, nada ver e apenas sentir, proteger, é o início do verdadeiro crescimento ou quem sabe sua constatação, a flor que você gerou e virou fruto, exercício para ser anjo.

Saudades do meu pai




Os pais escolhem e decidem ter filhos, a gestação, o parto...a criação são compromissos primordiais de quem teve essa escolha...o filho não tem o que escolher: Na ordem natural das coisas, você tem que conduzir à partida, daquele que te permitiu a chegada, é uma espécie de parto, na nossa ilusão, muito mais doloroso. E nessa “condução”, necessitei de um tipo de atendimento médico para meu pai , do tipo que se espera que seja  “Imbuido de razões humanas e sensibilidade”. Será?

Vou dar uma sugestão para o Ministério de Saúde aplicar nos Hospitais Públicos: Procurem a competência na ilicitude.

Não quero ouvir respostas do tipo: É o estado...a verba não é repassada...o salário é pequeno...que eu grito...FALTA HUMANIDADE, falta competência e acima de tudo falta respeito pela dignidade humana. Falta amor ao trabalho, falta missão...falta...

Peço aos pobres senhores diretores de hospital que percam o medo dos doentes terminais e o gráfico negativo que eles possam gerar no balanço de seu cargo. Peço aos mesmos diretores de clínicas que parem de mentir ao dizer que não realizam determinado procedimento, que na verdade realizam...mas não é para os seus pais.

Peço a todos que aceitaram cargo em hospital ou passaram em concurso público que compreendam que doença e burocracia não combinam, e que sempre temos a opção de tentar melhorar o ambiente ou abandoná-lo. Não percam suas vidas fazendo parte de um sistema desumano...tentem mudá-lo.

Não haviam quadros do Van Gogh na sala de hipodermia onde os pacientes ficavam abandonados, mas seriam apropriados talvez “o Corvo”, um Munch cairia bem com “O grito”...mas não tem nada para ilustrar além de olhos amarelos, cheiro  sangue no chão (o chão me lembra Pollock) misturado com o cheiro de urina. A dor estampada em diversos rostos que não imaginam que não estão amparados. Cena de guerra...mulheres e homens no mesmo ambiente com sua intimidade exposta (isso chega a ser o de menos mas aí teremos Schielles, só pintores malditos).

Me lembrei muito da brincadeira do telefone sem fio! Uma equipe que chega, que não sabe onde a outra parou, que não sabe o que a outra fez...e se acham todos vítimas do governo. Pessoas boas, algumas pérolas, que imagino o quanto sofrem ao tentar trabalhar corretamente, pessoas que sabem o que é ética e missão.

Triste constatar o tipo de persuasão que necessitamos as vezes chegar...por vezes usei de jogo de cintura, de palavra mansa ou de palavras difíceis...outras de palavras ameaçadoras, estas as mais competentes. Feliz em saber que podemos requisitar força policial para persuadir ao atendimento.

Imagino as milhares de pessoas sem estudo nas mãos desse sistema, sem  conhecer argumentos para “reclamar”, aceitando a cansativa explicação: “É o governo”....

Mesmo assim tudo é vago...Podemos confiar nas equipes que conduzem esse último parto? Pois se para todos os procedimentos somos ignorantes, pra que explicação...bastaria credibilidade. Eu não encontrei essa tal credibilidade durante essa condução...Não me venham dizer para ter fé... eu tenho, mas gostaria de ter no homem, a fé que talvez eu não tenha mais em mim mesma. Estamos nas mãos da incredulidade, e do silêncio que o quanto eu puder eu vou romper mesmo não sendo digna para isso.

É...a vida continua, e a morte a desmistifica, a simplifica e a torna banal.

Só perdendo alguém nos damos por conta, finalmente de  que tudo é passageiro, pouco é nosso e quase tudo emprestado. Como e pra que continuar essa jornada? Sorrindo? Sorrir na certeza de que aqui somos clandestinos é muito difícil, mas vale o esforço sorrir para ajudar aos que estão no início de uma caminhada, e na certeza de que solidão é apenas saudade que um dia vai ser esgotada.

Talvez eu tivesse acreditado até hoje que a fé me traria um 0800 espiritual  de consolo...onde com uma linha direta, eu teria notícias daquele que sempre quis saber a hora que eu sairia ou iria chegar. É as notícias não chegam mesmo, e eu me sinto talvez como ele se sentia nas noites em que eu saia sem dar notícias e ele ficava me esperando na porta. Eu acredito que ele está em algum lugar, mas não sei como, isso é desconfortante, além da saudade.

A fila anda...é isso também que a perda te mostra...continua caminhando e de cabeça erguida...faz algo que ele tenha feito, e coisas que ele deixou de fazer...tenha tempo para seus filhos...ame...seja carinhoso...diga hoje o que sente...trabalhe muito sem deixar de relaxar...

Apesar da perda, acredito que em algum lugar ele e outros laços que cultivei, que consegui amar apesar de desavenças, que consegui perdoar e ser perdoada, que não se mantiveram por valores superficiais...estão aqui e lá, perenes, na verdade, a única força perene da natureza, e é por ela que devemos continuar sorrindo.

Carta ao tempo




Ele, o destemido e implacável tempo, na sua tarefa árdua de descascar as paredes, matar os ideais, envelhecer as pessoas...não consegue abortar meus sonhos...

A angústia causada pela incerteza do futuro, misturada com a ansiedade de conquistar minhas paixões, me fazem perder o sono...

Sinto que cresço e que estagno concomitantemente, quando constato diariamente que muito quero, e pouco posso, muito almejo e pouco tenho. Muito posso ser e quase nada estou...

Devaneio a respeito de como comunicar meus projetos para aqueles que esperam de mim o praxe, a cortesia ou até mesmo a formalidade que em mim inexistem.

O que fazer, se o que melhor produzo são sonhos, se cresço no lúdico ou nas incoerências do mercado?

Brinco que vou comunicar minhas idéias em prosa, e que vou ter como resposta choros ou risos, broncas ou aplausos...

Digo-lhes com veemência que todos os seus atos são vãos, pois  todos os meus direitos são divinos, e que meus deveres são obrigações éticas que tive a infância para aprender, assim como fazer a higiene pessoal ...

Vocês podem lavar minha alma além de assinar minha carteira?

Me ajudar a conquistar um cargo ou a lua? Pois se não pretendo simplesmente me aposentar, mas um dia cumprir a  minha missão...

Nunca vou esperar uma placa de condecoração por serviços prestados.

Quero conquistar um espaço, como uma árvore plantada:

Aqui vive, sobrevive dignamente, quem tanto amou a e lutou para viver apenas de sua vocação!

O pescador cego e a ostra



Eu nunca fui à lua, sei que estou perdendo, mas consigo viver sem ela por que nunca estive lá, se eu a conhecesse e viesse embora, sofreria de saudades. Eu poderia chegar à lua, e ficar decepcionada: Esperava que ela fosse melhor. Ou seja, nascer cego, pode ser menos doloroso do que adquirir a cegueira.
Como serão as fantasias daqueles que não enxergam? Tem cheiro? Sabor? Como imaginam as formas? Talvez existam sentidos, que nós desconhecemos, mas vivemos sem eles. Vivemos? Como se sentir atraído sem ver? O que é ver? O que vemos sem os olhos?
Bom, nosso pescador nasceu cego. Recebeu boa educação dos seus pais, tudo para a sua sobrevivência, aprendeu bem o ofício, e dele depende completamente. Às vezes não tem peixe, tem temporadas de chuva, mas ele aprendeu a salgar e conservar seu alimento.
Certa manhã, ele acordou, abriu os olhos e achou que era um sonho estranho, mas na verdade ele estava enxergando, tudo, tudo, tudo...Então ele correu para a praia, olhou para a areia, entendeu como é o azul do mar e do céu, tentou fitar o sol, recolheu flores coloridas, foi pescar e desta vez até mergulhou para ver o fundo do oceano, viu uma enorme ostra, que ele não sabia que era ostra, pegou peixes com as mãos e admirou o brilho das escamas, quis aproveitar a noite e conheceu uma linda mulher, e se apaixonou.
Foi dormir, sonhou com tudo que viu durante o dia. Acordou novamente na escuridão. Sentiu que perdeu o mar, a areia perdeu o sentido, das flores só restou o cheiro, entendeu que poderia ter ficado rico pegando as ostras e se casou com aquela mulher.
Tentou conservar o sonho, mas foi ficando turvo...as lembranças de como as coisas eram, foram perdidas, sobreviveu apenas o sentimento de perda. Sua mulher ele tocava quase todos os dias e sua voz parecia mais cansada, e sua pele menos lisa, os cabelos menos sedosos, os seios mais murchos...mas ele ia pescar todos os dias.
Mesmo sem enxergar, mergulhava todos os dias para encontrar a ostra. Ostra? Uma casca dura, que se abre um pouquinho todos os dias para se alimentar, dentro delas tem uma manta, o nácar , e a ferida nesta manta, causada mais comumente por um grão de areia, cria uma reação de defesa: A pérola. Quanto mais feridas tem uma ostra, mais ela cria pérolas.
Cada dia o pescador saia do mar com um crustáceo diferente, conchas diferentes, mas o informavam: Não é uma ostra.
Uma vez passou dias abraçado a uma concha, crendo ser uma ostra, quando levou ao comerciante, ele o informou: Não é uma ostra! Que decepção...
Em seu lar, dentro de um galão, foram se acumulando esses “enganos de ostras” de todos os tipos. Alguns ele colocou até para enfeitar a casa, crendo ser belo.
O pescador gastou muitos dias em seu ofício, os filhos cresceram bem alimentados, a mulher sempre ao seu lado porém só. Pois o tempo passou, e os cheiros do mar eram mais agradáveis que a rotina. O pior, a rotina no escuro, de poucos sentidos. Mas ele acreditava piamente que estava fazendo a parte dele, por que voltava pra casa com o peixe, e assim havia feito seu pai, ensinado pelo seu avô, que aprendeu com seu bisavô e assim por diante. Bastava cumprir sua missão e voltar para casa com o peixe, alimentar e vestir é ser bom pai, e ser bom marido é voltar para casa.
Depois de anos, tornou a ocorrer o mesmo milagre: acordou enxergando! Crente que perderia a visão no mesmo dia, refez todo o caminho da outra vez, não encontrou a ostra, mas ele foi dormir e acordou ainda enxergando...todos os dias.
As coisas não eram mais tão belas como ele lembrava, a mulher envelheceu, a casa também, os objetos, algumas coisas como o mar, o sol e o céu continuaram lindos, mas nada da ostra aparecer. Sempre os mesmos mergulhos, e nada... Revirou o galão na esperança dela lá estar.
Gastou sua energia na claridade, da mesma forma que gastou na cegueira...mas não encontrou. Talvez ela nunca tenha existido, ou quem sabe ele ainda não tinha total capacidade de enxergar. Mas ele procurou a vida inteira...por essa casca, cujas feridas viram uma jóia. Partiu pobre e sem entender que produziu pérolas a vida toda, com a mesma contribuição da areia ferindo o nácar de todos que o rodeavam, nenhuma luz foi capaz de abrandar sua escuridão.

Poder Feminino



Onças pintadas de rímel e baton, gazelas correndo desajeitadas de peep toe, sensualidades medidas por bolsas ricas penduradas, cabelos artificiais, poderosas mulheres homens...não aguento mais...
Mulheres, larguem de tanta besteira, seus corpos são belos, mas suas almas são caldeiras, efervescer de sentimentos e idéias, cuja ebulição aumenta com o passar dos anos.
Cozinhando a mim mesma sobre esse fogo, eu me encontrei, achei minha legitimidade. Traços que nascem quando nos distanciamos da eterna autoridade. Só assim, fiquei pronta para a minha jornada, um caminhar por uma longa floresta.
Aterrorizada por Pã, Fúrias, Medusas e outros demônios, encontrei no chão, uma pequena brecha. Chamei minha menina de 6 anos, que adorava brincar na terra, e eu sentada comigo mesma, temos cavado para encontrar outras de nós, as desconhecidas, mortas ou enterradas.
Não há outro caminho para as Evas...Não somos quem pensamos que somos, nos nossos maiores delírios de grandeza, tentamos conquistar terras que não nos pertencem: Terrenos de poder, adubados pelos Adões! Isso não corresponde a um hectare do latifúndio de nossos paraísos (aqueles aos quais fomos expulsas).
A que se temer seres que já foram oráculos, esposas de dragões, bruxas...incendiadas por brutos aldeões. A que se castrar quem já nasceu castrada. Escurecer sexo que nasceu iluminado, tirar a luz de quem dá a luz.
Quais os poderes das fêmeas do mundo animal...sentir o cheiro do inimigo, defender a ninhada dentro e fora do abrigo, acarinhar, ensinar...ninar. Luxo é vestir o corpo com a alma, e o seu cartão sem limites, nunca conseguirá a ela comprar.

Raça Covarde




Calamos-nos, enquanto o mal não atinge a nós mesmos. O nome disso é omissão, irmã de sangue da covardia.
Criaturinhas ensossas que somos, apenas entendemos o sentido da palavra empatia, quando sentimos o mal na própria pele.
Acabaram-se as listas de defeitos viáveis, para nos culparmos e nos agredirmos uns aos outros, portanto, não é mais necessário motivo para que expliquemos nossas próprias atrocidades, pois a verdade, é que o mal sempre existiu pelo próprio mal, não para atingir aquele que tem religião diferente, cor, raça, sexo, opção sexual...isso sempre foi uma justificativa para lançarmos para fora, o que existe dentro de nós. O “pai rancor”, marido da “esposa medo”.
De onde surgiu esse medo¿ Talvez do princípio de tudo, onde era o “diferente”, o mensageiro da pedra ou espada que nos colocaria, frente a frente com o desconhecido: a morte. Pois é, passamos a temer uns aos outros, tal qual a lebre, teme a raposa.
Talvez a cultura do “Inimigo”, nunca acabe. Alguém precisa ocupar a cadeira dos nossos desterros. E entram eras e saem eras, de danças da cadeira, tronos dos nossos próprios demônios são cultuados, materializados em criaturas inocentes...inocentes¿
Pergunto-me em que ponto termina a ignorância bruta e começa a inocência, que antecipa a mais completa crueldade humana. A inocência é um momento único, e talvez nela esteja a ciência da velocidade da luz. Nossa razão, habitando ainda corpos rudes, incapazes de capturar a inocência, de contemplar a beleza e as diferenças, se encontra no paradoxo que liga o homem ao animal de forma mais profunda possível. O animal esta próximo da natureza e de suas forças maiores, para perto de quais forças nos encaminhamos quando ganhamos a inteligência¿
Nos calamos, enquanto o mal não atinge a nós mesmos. O nome disso é omissão, irmã de sangue da covardia, mas isso é coisa de homem, não de bicho.





quarta-feira, 25 de abril de 2012

O Circo




Não há melhor analogia para a vida, do que a história do circo. Pois somos os leões enjaulados, macacos vestidos, palhaços desinibidos.  Truques mentirosos, que fingem ser magia, de ilusionistas completamente desiludidos.

E vai começar o espetáculo:  E olhem  para meu rosto pintado! Nele estão impressas dores, semelhantes à do filho de alguém da platéia, que sofre por não saber ser ator. 

No atirador de facas de olhos vendados, apresentamos as lástimas daqueles que se sentem cegos,  e angustiados habitantes de um mundo, que nada lhes restou, senão mirar alvos de idéias sem sentido...ou pessoas,  que representem tudo aquilo,  que não teve coragem de ser.

Entre no picadeiro e faça parte dos infortunados pensantes. Aqueles que acordam pela manhã, se indagando, por que estamos aqui, partamos para outro lugar...Nem a balarina, recebeu aquela educação brilhantemente motivadora, que nos repete a cada dia, que temos que aceitar a fórmula do sucesso.  Pois é... e as coisas que eu poderia capturar com as mãos, não fazem meus olhos brilhar. 

Certamente, meus insights estão longe de serem populares, são apenas flores particulares,  espetáculo mambembe ultrapassado, cujas raízes se estendem a terrenos que são só meus, fora do unânime. Eu sou as ideias rejeitadas, o exemplo a não ser seguido. O espelho do oprimido, a pintura do pintor louco, as palavras do verbo não proferido.

Sou invisível estando no meio da população...a palhaça que quando aprendeu a pensar, esqueceu o que é sorrir, pois carrego em minhas dores, as dores da multidão.  

terça-feira, 24 de abril de 2012

Triste confissão




Eu deveria, poderia e teria argumentos da minha IMAGINAÇÃO para começar uma história com recursos lúdicos, líricos, tons pastéis, rimas ricas...e, incrivelmente eu sei chegar nesse extremo como poucos, e vou chegar... Eu tenho um diploma costurado em minhas vísceras, e não me orgulho da ausência de cadeiras acadêmicas dele, mas cada um faz o que pode. A burocracia me enriqueceria...com certeza. Mas só ela não me bastaria. Frequentei dores, pânicos, empatias, soluções, medos e milagres que ninguém freqüentou.

...Em baixo do tapete florido e com arabescos, está o sangue, está ali por anos, mas está fresco, vivo, bem mais vivo que minhas lembranças enterradas. Não chega a ser um líquido jorrado por um assassinato, ou por uma tão grave mutilação. É o sangue que está simplesmente por baixo do tapete da minha dor. Sua dramaticidade? Cabe a quem quiser interpretar, eu mesma tentei transformá-lo em algo lírico como meus quadros borrados e minhas poesias dispersas que não chegam a lugar algum, como eu...

Normal...assim todos crêem ser sua realidade, e por  muitos anos também o fiz. Por alguns outros anos tentei ser “o contrário”, nunca me dando por conta que “o contrário” é guiado justamente por sua oposição.

Detesto, me envergonho, me sinto humilhada em me lembrar das vezes em que eu apanhei, mas envergonhada ainda em lembrar que gastei anos tentando raciocinar “por que apanhei”...literalmente...sequer tenho consciência se eu posso ter me tornado ré em diversas situações, calcada na falsa realidade que aquele sangue me tornaria eterna vítima, a que sempre tem razão, a mártir?

Pois foram nestes dias de sofrimento que eu nasci, antes disso  minhas realidades eram diferentes...

Como é a dor de apanhar de um pretenso amor? É o fim de tudo, a falta de sentido, a ausência do espírito , é a descrença, o inconformismo e a loucura. Não há Maria que console...nem Madalena, nem mãe de Jesus, nem da Penha... O que resta nesses casos, é simplesmente repensar o que é amor.

No início, eu me vingava de minhas dores rasgando meus quadros e me trancava em um quarto escuro, e hoje questiono como persisti na crença em Deus, se é que persisti.

Mas anos depois disso tudo, eu estou “Desaprendendo a amar”, é isso mesmo, desaprendendo. Isso não que dizer que eu não ame.

Quer dizer que eu, e talvez todos nós, tenhamos aprendido da forma errada. E ao reaprender, eu acho que vou ter que utilizar essa mesma palavra para um conjunto de químicas e sentimentos diferentes dos que eu me acostumei. Por que eu  ainda não sei perdoar...e...”não saber perdoar” faz parte de amar? Eu não sei a resposta...

A memória nos prega peças. As imagens são fortes. Acho que o indivíduo que perdoa facilmente é simplesmente aquele que consegue criar novos cenários, se apegar a novas imagens e apagar totalmente as antigas. Talvez a palavra “esperança”, seja um segmento desse processo, se a esperança fosse uma pessoa, seria uma pessoa que não olha para trás...talvez essa "pessoa esperança", não consigo sequer olhar para si mesma, ou para o seu lado, pois só isso já faz com que se pese os prejuízos...os danos irrecuperáveis que a violência pode trazer para várias vidas, quando ela passa apenas dentro de um lar.

Juntar clichês é o meu repúdio, mas existirá amor sem esperança? Nesse emaranhado de “anças”, confianças, esperanças, bonanças... CONFIANÇA...não entendo mais nada e descobri que meu corpo sempre me enganou, pois o amor não está só nele. O amor mexe com o corpo, mas nem tudo que mexe com o corpo, é amor.

Amar é apenas estado de espírito. O estado de espírito que dá significado para a vida. O significado de montar família, montar um lar, gerar filhos...pagar contas, comprar uma casa...são metas dignas de quem ama. Toda essa “rotina”, é o meio e não o fim. Prazer, abnegação...talvez eu seja platônica em acreditar. Não, eu não sou perfeita também, obviamente. Estou chegando a conclusão, que os perfeitos erram, e perdoam, e impreterivelmente andam para frente. Estou longe disso e próxima das mentes encarquilhadas e que olham para trás, criticando e tentando consertar as coisas no local e tempo errado...pois o que passou passou, e por definição, os nós embolados, assim continuarão se não os desatarmos seguindo em frente.

Círculo, repetições em ondas, de uma geração para a outra da família, cada barriga gera uma hipérbole dos seus próprios medos e neuroses...onde isso foi parar? Há conserto?

Não posso negar a frustração de que essa “sala de aula”, não existiu , compensei observando, escutando, imaginando e sonhando...que, quem sabe ela existirá no momento em que minha maturidade me permitir. Por enquanto, eu vou apenas registrar o meu curriculum vitae, aqui, da forma em que a vida me levou a escrever.

Entendi a poucos dias, que os sonhos não tem começo e nem fim, são geralmente fragmentos. Eu sempre escrevi fragmentos...e tento faz alguns dias, ter algum insight para decidir em que ponto eu vou começar a escrever minha história, terminar então nem se fala, eu não acredito que as histórias terminem...

Venta Vida!





A vida é a própria natureza, à vezes vento ou vendaval, calmaria ou temporal. Um relâmpago sempre a relampejar.Não lembro mais, mas sei que pulei  vários carnavais que correm paralelos em algum lugar.

É, parecem várias vidas, e quanto mais o tempo passa, se entende que tudo que vale o  mar não leva, o chão ruído não engole, as areias não cobrem.

O corpo está sempre indo, mas alma cada vez mais vindo. Plenitude.

Pai do céu e Mãe da Terra




É, o pai está no céu...e a mãe está aqui na Terra.

Que cada uma cuide do seu latifúndio, que ao que parece esse corpo mãe se encerra, de tanto germinar almas, há de murchar pelos seus filhos: os homens-árvore quimeras.

Ergue filho, o tronco! E acomoda sua raiz em minha loooonga esfera, vê que seus galhos vão subindo, subiiiiindo e desmanchando tooooda estratosfera, e suas raízes , mesmo assim estou sempre parindo, pariiiindo...por que amor é só o que minha seiva gera.

Desce filho! Sempre te ajudei a adubar a mim mesma, essa mãe terra que te espera. Ingrato que aguarda ansioso o caminho dos céus, planejando me abandonar como se eu fosse megera.

Arranca seu olhos agora! E tateia o que NÃO te pertence a vera...se aqui tudo é palpável, seu pai te paga é com ventos, graças, sentimentos e frios de inverno, sem flores de minha primavera.

Dor...ao te ver podando...caindo dos meus galhos, murchando os seus meus frutos...”fotosintetizando” o ar em poeira...secando como pimenteira...aaaaaai...

Me curvo. Chorando em total desespero...só mãe sabe o que é sofrer...seu pai te deu a vida...e etérea e intangível luz, eu gerei a madeira e para te consolar no colo, me disfarcei de cruz.

Escatologia




As nuvens se formaram repentinamente em forma de Zeus, ou de Deus, ou de quaisquer fenômenos escatológicos...e começaram a soprar, a ventar, a destruir todas as paisagens de cimento de colorido quase acinzentado, formando um caos. A pessoas corriam pelas ruas com roupas e cabelos esvoaçantes, aterrorizadas e livres. 

Todas as construções foram derrubadas deixando apenas cinzas, pessoas descabeladas e nuas. Seguido o desespero do nada ter, veio a bonança do “nada a fazer”, e todos deitaram relaxados no nada.

O chão foi se partindo e dele brotando luzes em neon...verdes, azuis, amarelos, formando árvores e flores em forma de andaimes reluzentes. As pessoas nuas se levantaram para contemplar, e os reflexos das luzes tornavam seus corpos vestidos e seus cabelos como que repletos de vaga-lumes.

Esses andaimes reluzentes foram vagarosamente forrados por matérias que pareciam luzes, penas, folhas, galhos, águas, estrelas, pedras...formas que todos conheciam apenas de seus sonhos e de sua infância.
O choque humano, fez com que seus pés criassem asas nos pés, como Hermes, e todos começaram a voar em torno de si e dessa nova realidade.

A tristeza da perda, e a saudade das imagens destruídas, causava em todos, instantâneas nostalgias, que eram imediatamente apagadas pelo brilho das novas cores e impressões.

Os cabelos...ah os cabelos...passaram a ter outra importância, eram o movimento do ar e a extensão dos sonhos...E não conhecíamos todas as cores e cheiros, não éramos nada antes disso, além de autômatos esperando a morte e a submissão de nossa matéria a fazer parte da matéria morta e árida.

Pois a matéria não é mais morta. Ela é a extensão dos nossos bons pensamentos e a ressurreição de todos os sentimentos nobres. As plantas são mais brilhantes, o céu tem mais cores que o azul e a vida vai muito além do nascimento e da morte, dando finalmente um sentido a vontade de estar vivo.

Ceticismo



Reflita: para que não lastime,
e ame para que não sofra.
Ou curta suas lágrimas
que são de seu mérito,
e de sua falta de reflexão.
Se orgulha de "ser vítima"?
Apieda-te de ti mesmo?
Este é o resultado
por ter sido surdo
à tua própria intuição
Cético! Pragmático...
Patética a sua falta de fé
no que na realidade
é pura razão...
Sofra mesmo,
se auto-diagnostique meu irmão...
...é moderno ter bipolaridade!
justifique e fique à vontade...
...tome remédios, beba...
vire às costas para toda verdade
ou abra os olhos para a saudade
se ajoelhe
e se apresente à humildade.
Enxergue que é lógico
fugir da dor...
Se só acredita na física,
na química e biologia:
Acorda e olha para a luz do dia
e raciocina que toda criação
tem um criador.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Procissão no interior




Sigo na procissão, e nessas ruas estreitas estreladas, de paralelepípedos milenares, sigo descalça, vestida de branco e rendas. Carrego uma pequena caixa com meus pecados, trancada, para que nem eu possa vê-los.

Para homens e mulheres, o melhor do mundo, é o fato de que nessa caminhada, somos apenas ignorantes, crianças caminhantes , anjinhos perversos seguindo errantes, na única direção que os anjos mais velhos puderam nos ensinar.

Que a natureza preserve os nossos joelhos, ou que surjam novos parceiros, que nos ajudem a de pé caminhar. Nesse caminho louvamos nossos altares, nomeamos   nossa solidão perdida, damos a ela forma, a vestimos roupas e a carregamos nas costas,  louvamos, apenas para conseguir continuar. Os bichos nos seguem, sem desespero, por terem recebido, do provável dono dessa procissão, a dádiva da ignorância...ao invés do infortúnio da razão.

Sim, devemos ser realmente pecadores, o nosso castigo é pensar...se fôssemos ainda animais, tudo que hoje  se encontra nessa caixa pesada, nessa longa caminhada, estaria em outra procissão: Liberto ao vento, no caminho dos rios seguindo os peixes, embrenhado no cio dos lobos mata adentro, no amor contido em cada elemento.

Quem nos dera, durante essa procissão, resolvêssemos voltar atrás, por algum motivo da natureza,  parássemos estupefatos, olhando uns aos outros de fato, e corrêssemos para o início de tudo,  despindo idéias, arrancando as roupas, adornos sociais, penduricalhos matrimonias... Beatas repetidas, velhos desanimados, meninos desamparados, caucasianas e mulatas, guerreiros e malandros, mendigos e magnatas... quebrando  caixas,  libertando almas, inspirando e expirando imagens...apenas viver já é caminhar, nossos caminhos não são ruas, encontram-se embaralhados na Terra, no céu e no mar. Esse, é nosso altar.

E finalmente percebendo, que tudo, tudo é sagrado! Cada pecado por nós mesmos condenado...e assim sendo , nesse momento, retrocedêssemos nossas orações, aos idiomas, a antes das palavras e palavrões, aos grunhidos, que seja em gemidos,  dirigidos assim á perfeita impossibilidade,  e ao verdadeiro sentido de rezar. 


Ouvindo a Mãe Terra





Sim, eu sou mulher, eu pari o mundo e posso muda-lo só com meu ventre.

Guardo comigo a solução dos bichos, o mal dos homens e orgulhosamente: todo pecado do passado,  futuro e presente.

Ignoro o destino tomado pela razão, me encontro soterrada no elo perdido da paixão.

Mas sou extremamente forte, pantera atiçada pelo perigo de nossa atual condição, onde os filhos passam fome, meus hormônios explodem salvação.

Usina radioativa é usina do homem, a minha energia é a compaixão.

Me manifesto na natureza... Reverto minhas lágrimas em tsunamis, meus ciclos nas luas, meus temores nos vendavais.

E a chance dos meus filhos, é ouvir a mãe e quem sabe até descrer no pai: Se suas ordens não mudaram o mundo, não deveria tê-los deixado, passar de animais.









Troféu estranho






No silêncio do tentar escrever, meu corpo me diz que não passa de morada de várias mulheres perdidas no tempo. 

Elas me sussurram que  não se importam com as coisas que não conquistei, me informam democraticamente que ainda tem que me gritar onde eu posso chegar, e seu eu não sei, elas vão me guiar.

 Joana me grita que suas queimaduras ela me empresta de escudo, as mortas como bruxas me pedem para pecar, as santas não canonizadas se esvaem de choro em algum canto meu, rezando pelo meu não desfalecimento. 

As do céu me jogam suas asas e me dizem para eu me levantar, as do inferno me dão dicas de Caronte, Hades e Thánatos para que eu possa ludibria-los e continuar. 

Que meus filhos digam:- essa é minha mãe! Aquela que provou que se pode viver do que" não era." A que calou aqueles que acreditam que a vida, só existe pelo do que de ti, esperam. A que ouviu os loucos sem medo de sê-lo,  que cala os sãos, sem medo de não tê-los.

 Nada mais me importa.

O mundo borbulha estático nesse momento, fora da minha sala verde penumbra, onde sentada no meu trono imaginário, entendo que meus dedos conduzem  minhas revoluções a  transformar tudo que era para ser ócio, em criação.

Calo a todas e informo, que eu quero dinheiro!  O estranho troféu sem sentido! E o quero, pelo que ninguém espera. Quero-o pelos milagres que essas insanas podem me proporcionar, quero ser paga pelo meu mais profundo e absoluto mistério, pelo gozo do inesperado, pelo adormecido,  esquecido, ou morto estando nesses perdidos, todos os meus achados.



terça-feira, 17 de abril de 2012

Altar





No, I do not want to die, like the ones I love are gone! I want to be drunk sober until my last breath.

Imprisoning me shiver, I feel them forever!

Please ... I do not want to turn nothing static.I ask my dreams, they bring me wheels, tires, slingshots and catapults, as I shoot my verses, I sweat a joy!

I swear, I do not want to live in harmony! I want to be squeaky violin at night, to comfort my brothers in the light of day.Knot tied in agonized sleep, Penelope carpet on the floor of calm.

I want to die every time I get to my destination, to revive and I find myself and a new place, losing, finding, losing, birth, death, birth, lose, find ...

Body, this Greek! Blessed Cursed!I exorcise my soul to imprison you,I am warrior: Slave! That armor needs to shine ...I get used to their scrapes, the rest of my ill-treatment, itching, scars, stops rays of my passions, torpor, pleasure and moans, whispers, pops, I feel my throat growl,succumbing to your pleasure, my uterus ever give birth, menstruate, ovulate, oxygen synthesize ....I'm on my knees in the mirror, revere you.

...unfair ... always praised my soul in the first place ...I beg you, forgive me and hugs me, eat and drink yourself, while I stay.Takes my heart, heals the body!And one day, let me leave with decency...Please do not envy me because I'm there. My companion banished from paradise!

I scream: Body!
The Earth is its altar.
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Não, eu não quero partir como os meus que se foram! Eu quero estar embriagada até o meu último suspiro.

Aprisiono sorrateiramente meus arrepios, eu quero sentí-los eternamente!

Por favor...eu não quero virar nada estático. Peço aos meu sonhos que me tragam rodas, pneus, estilingues e catapultas, pois quero disparar meus versos, eu quero suar alegria!!

Eu juro que não quero viver em sintonia! Quero sim ser violino de noite desafinado, pra afinar meus irmãos na luz do dia. Nós atados no sono agoniado, tapete de Penélope no chão da calmaria. Quero morrer toda vez que ao meu destino eu chegar, pra eu reviver e me encontrar e um novo lugar, perder, encontrar, perder, nascer, morrer, nascer, perder, achar...

Corpo, presente grego! Bendito Maldito! Te esconjuro a em minha alma te aprisionar, guerrilheira que sou:  Escravo!! Essa armadura precisa brilhar...me acostumarei com seus arranhões, resto dos meus desmazelos, comichões, cicatrizes, para raio das minhas paixões, torpores, prazeres e gemidos, sussuros, estampidos, quero sentir  minha garganta grunhir, ao seu prazer sucumbir, meu útero eternamente parir, menstruar, ovular, oxigênio sintetizar...levo corpo, seu joelho ao espelho para te reverenciar.

Injusta...sempre louvei minha alma em primeiro lugar...Eu te peço, me perdoa, e me abraça, me come e me bebe enquanto eu  ficar. Acolhe minha essência, te cura corpo! E me deixa um dia partir com decência, não me inveje por que sou de lá, companheiro do paraíso banido!

Eu grito: Corpo!!
A Terra é seu altar.

Fígado de Prometeu




Como você ama? Eu amo como eu aprendi a amar. Sempre achei que não. Me julguei peculiar. Mas eu amo, exatamente como fui ensinada.

Por que? Por que a MINHA maneira de amar eu desconheço, ela se encontra perdida, afogada e escondida...e bóia em fragmentos dos meus sonhos, que eu, como pescadora “amadora”, tento fisgar...no que antes era um riacho, que se tornou um rio, hoje uma praia, amanhã quem sabe um dos oceanos, o oceano de idéias e pessoas que eu realmente sou.

Nesta minha praia, amor sequer tem nome. Pois fora desta praia, e ele veio exatamente de fora, programado e determinado, sequer comparável a qualquer elemento espontâneo da natureza. Eu, talvez todos nós, tenhamos aprendido a amar, como quem aprende a montar um objeto, que é encomendado, chega rotulado e com manual...sempre com defeito de fábrica ou garantia. Ele é bonito ou feio, grande ou pequeno, barato ou caro. Um produto. Finito.

Não, nos meus mergulhos eu sinto que ele não tem fim, forma ou valor. E quando acordo, sinto que erramos, e erramos muito, justamente por termos aprendido que ele é resultado de uma ciência exata. Ele é inexato. Ele é inexorável? Não...é flexível!Indestrutível? Não, ele não pode ser destruído, pode ser abalado, transformado e reconstruído, é um fígado de Prometeu.

Não quero




É muito natural:
Eu não quero mais.
Pela ambição,
galopei como um corcel
Ela ficou para trás
Acordo apenas
querendo estar em mim
e nada mais...

Universo Melancolia



Mas como segurança? Se moramos em uma bola que flutua no nada...Desconheço meu próprio universo, sempre em expansão e não estou certa se rodarei sempre em torno do sol. Não me protejo dos corpos celestes e pode cair um asteróide, ou quem sabe: A terra mal acomodada pode abruptamente tremer estourando usinas.

...Buraco negro, que me faz pensar que apenas existimos pela impossibilidade do “nada”...tudo longe e desconhecido...Onde haverá recursos para outras formas de vida? Outro acaso como nós?

Humanidade!!! Às vezes olho a minha volta, e por mais que eu tenha minhas crenças, eu refuto a possibilidade de não sermos nada, não termos realmente importância alguma, de termos o acaso da inteligência nos fazendo crer que somos mais importantes do que cada gota do oceano, cada poeira cósmica. Me distanciando de “Deus” a cada dia que se passa, me aproximo de uma força maior. A que tira de mim toda arrogância e prepotência de crer que sou privilegiada acima de todas as coisas. Abro mão dos privilégios  e me coloco na mesma altura de todos os seres vivos. Esta força seja lá qual for já me guia independente dos meus pedidos, com o mar, o vento e as estrelas e não as culparei por qualquer fracasso. Eu peço perdão por todos nós e sou agradecida a essa natureza por me proporcionar a experiência da vida. Agradeço pelo cosmos e quem sabe a alguma conjuntura estrelar por me permitir ser uma observadora neutra. Acho realmente tudo estranho e engraçado, as preocupações, os valores...isso por que não consigo pensar apenas no aqui e hoje, no riso fácil...não dá...

Objetivo. Isso eu quero continuar crendo: que todo esse conglomerado de coisas, formas, vidas, valores...tem um objetivo. O único que consigo imaginar é o nosso crescimento, estou longe de entender o por que... mas temos que crescer, amar, ser solidários...para que nos tornemos...Será? Será que existem criadores e criaturas? Acho que sim...então, enquanto não passamos de criaturas vamos aguardar “as ordens” dos criadores, sejam eles deus, deuses ou seja o que for que nos tire a responsabilidade do destino das coisas.