quinta-feira, 12 de abril de 2012

Passagem errante




A vida é breve, e de noite
Eu penso no seu objetivo
Mas não encontro respostas
Por isso, não sei
Se vale à pena agir, crescer, ter...
Temporadas vem e vão
Encobrindo  camadas de pele jovem
Trazendo  frutas e engolindo amores
Mas a qual artista de toda criação
estaríamos contemplando¿
em que direção é a sua morada¿
Batamos  palmas então
Rodopiando  ao vento
Agradecendo o reconhecimento
Do desconhecido...
Soframos a dúvida
De que aqui é apenas breve passagem
Ou é nossa morada eterna.
O que fazer por ela,
Que hora nos deixa expostos
Hora nos acalenta com suas nuvens
Sol, estrelas e até concreto armado
Batamos palmas para esse gênio
Que pode até ser o vazio
Nos fazendo crer
Que dele somos diferentes
Mensagens, mensagens, mensagens
Que vem e vão
De povos indígenas, errantes
Bárbaros, ciganos, urbanos
Rupestres...
As vezes quero partir
Num trem que não sei o destino
Mas que me leve para longe daqui
Deste zoológico de jaulas invisíveis
Sem temer os danos ...
Onde está o lugar no universo
Onde realmente se produz¿
E se ele existir,
Queria estar lá,
Mesmo na possibilidade
De eu ser apenas uma engrenagem
Do criador
Que se mova e que faça mover...
Pois hoje,
Tudo que vejo
É ferro velho e material de reposição
Estoque
Entulho
Embrulho
Oposto do orgulho

Herói "Pensamento"


sábado, 22 de outubro de 2011

Moça Hipérbole



(Imagem de Perséfone)
Eu tenho em mim uma hipérbole,
onde tudo nela é mais.
Perséfone...
É uma moça de sangue quente
Perdida no cais
e de modos italianos.
O choro dela é mais estridente,
as dores mais profundas,
o riso mais frouxo
 o gozo mais indecente.
É ela a parte do meu prazer
e me promove riscos,
não se importa em maldizer...
é a que tem sede de liberdade,
vontade de fugir,
desprezo pela verdade
atração pelos prazeres vãos.
Prevenida guarda:
 Duas moedas para Caronte,
o alimento para Cérbero,
e uma coroa para Hades.
Crê ser esse rio, a ponte
para o descanso que morreu...
perdendo seus escrúpulos
mas encontrando seu eu...

Dimensão



Somos uma ampulheta, e a quantidade de areia que está dentro dela, a velocidade que ela se esvai...somos nós que projetamos dentro das limitações que a “civilidade” nos permite. O fato é que ela gira quando a areia se acaba, tornando um ciclo sem fim...nesses giros nossos horizontes se abrem, a vida se torna maior assim como nossas capacidades.
Ainda não há uma definição única de felicidade, e talvez nunca haja...porém, mais uma vez nosso idioma, amarra diversos significados a apenas um símbolo, pois quais são as alegrias dignas? Só teremos um breve noção do que é felicidade profunda quando nos desintoxicarmos de nossas experiências sociais, que nos fazem acreditar que o outro tem que compartilhar da nossa felicidade...apreciar, bater palmas para o nosso sucesso, sucesso...ou seja, a alegria está normativamente ligada ao quanto somos admirados.
Singularidade...exige coragem. Não somos mestres, somos de um tempo onde maior parte das invenções foram inventadas, quadros foram pintados, filmes feitos, filosofias construídas. Somos filhos não singulares, e nesse mundo já pronto, aos nossos olhos estreitos, nos parece que só nos resta usufruir. Usufruir coisas inúteis, inúmeras e que cabe no universo particular que construímos: Na nossa casa, no nosso carro, na nossa beleza.
O céu, e tudo que está nele não passa de uma vista que ilustra o mesanino de uma construção perecível. Ele simplesmente é uma paisagem, que existe por que vemos. E vemos pouco. Sentimos muito e sem qualidade.
Sofri sempre, por enxergar que tudo que temos acesso não passa de uma grande ilusão emprestada por tempo limitado. Vejo pessoas perdendo...perdendo...e ficando contentes pela sorte de recuperar o que perdeu...afinal, só se pode recuperar, o que já se teve de posse. Mas e o novo? O mundo em sua totalidade ainda se encontra no desconhecido...perdemos é  tudo que desconhecemos...por isso a vida ainda é frágil. Por que tudo que desconhecemos, está sempre entre nós como fantasmas que não podemos ver ou tocar.
Prefiro e aprendi a acreditar que estamos aqui visitando família e amigos...estamos aqui para crescer juntos...a sensação de que estou em um trecho da minha passagem me faz continuar trabalhando e aplacando meu medo. Construir? Sim, mas lembrando que em determinado momento tudo vai ter que ficar, como que num almoxarife, aguardando que outros possam usufruir e tornar suas vidas mais dignas. Dignas...Alegres
A alegria pura não pede aplausos...e se a sua já te pediu algum dia, me apiedo pela sua fraqueza, pelo seu desinteresse por si mesmo e pela morte dos seus mais puros desejos, aqueles  que te tornariam uma pessoa singular.Pois para cada indivíduo, a vida tem uma dimensão: A dimensão do desconhecido que ele pode enxergar com um critério só seu...as várias releituras do que pode ser real. As imagens desse universo que construímos com nossa própria e mais pura essência, são as imagens que cruzarão conosco de forma mortal ou salvadora.


A morte


É...a vida continua, e a morte a desmistifica, a simplifica e a torna banal.
Só perdendo alguém nos damos por conta, finalmente de  que tudo é passageiro, pouco é nosso e quase tudo emprestado. Como e pra que continuar essa jornada? Sorrindo? Sorrir na certeza de que aqui somos clandestinos é muito difícil, mas vale o esforço sorrir para ajudar aos que estão no início de uma caminhada, e na certeza de que solidão é apenas saudade que um dia vai ser esgotada.
Talvez eu tivesse acreditado até hoje que a fé me traria um 0800 espiritual  de consolo...onde com uma linha direta, eu teria notícias daquele que sempre quis saber a hora que eu sairia ou iria chegar. É as notícias não chegam mesmo, e eu me sinto talvez como ele se sentia nas noites em que eu saia sem dar notícias e ele ficava me esperando na porta. Eu sei que ele está lá, mas não sei como, isso é desconfortante, além da saudade.
A fila anda...é isso também que a perda te mostra...continua caminhando e de cabeça erguida...faz algo que ele tenha feito, e coisas que ele deixou de fazer...tenha tempo para seus filhos...ame...seja carinhoso...diga hoje o que sente...trabalhe muito sem deixar de relaxar...
Certa vez uma amiga me disse que amava muito o marido, eu a perguntei o que ela faria se ele fosse para uma guerra, ela respondeu prontamente que se casaria novamente, eu respondi: -Pois é, a um filho, se espera. Pensei outro dia: -Será que minha avó, depois de anos desencarnada, ainda tem o mesmo sentimento por mim? Deixamos de ver amigos por anos e quando os vemos, sentimos como se fosse outra pessoa. Me lembrei dos laços eternos, aqueles que o tempo não rompe. Acho que eles existem sim. Apesar da perda, acredito que em algum lugar ele e outros laços que cultivei, que consegui amar apesar de desavenças, que consegui perdoar e ser perdoada, que não se mantiveram por valores superficiais...estão aqui e lá, perenes, na verdade, a única força perene da natureza, e é por ela que devemos continuar sorrindo.

sábado, 19 de março de 2011

Pousando

Não tenho tido vontade de escrever...por que me senti tão livre que não pude me conter, precisei voltar. Mas voltando, sendo o que eu tenho que ser, ou o que eu sempre deveria ter sido, parecendo ser assim que eu me encontro, na realidade de mim eu me afasto. Tenho tentado andar pelos quarteirões estando neles e não em outro mundo, tentando pousar, é difícil ter os pés no chão ou enxergar o grande no pequeno, o mágico no simples, mas isso é se manter são e vivo. Estou voltando e não sei pra onde e não gosto de voltar. Repudio as prisões invisíveis aos outros e para mim disfarçadas de lojas, escolas, restaurantes, calçadões...mas eu preciso delas. Não me sinto autômata e isso fez de mim uma estranha que hoje reconheço. Bisbilhoto medos alheios, catalogo a mesmice desapercebida e me choco com a falta de sentido do próprio sentido. Rotina. Maçante e necessária rotina. Tenho tentado participar dela travando uma batalha com o óbvio, me sentindo o fantoche ao menos subversivo. Um pensamento me faz suportar: Nada é mais concreto do que as lembranças. Nada é absoluto senão o sumo do dia-a-dia que os anos levam. No final das contas quem decide tudo sou eu, independente do que possuo ou não, sou eu que conto minha história.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Parto

Dói o parto,
Dói toda vez que eu parto,
E eu nem sabia que eu partia.
No próximo parto eu já esqueci
O quanto o outro doía.
E eu parto sempre...me parto...
para dentro e para fora.
A pior dor é a minha
E a do Hoje e Agora
Sádico diminuir minha dor
Comparando com a da senhora...
A que se buscar o que tem dentro
e levar embora,
avaliar o que tem fora
para filtrar para dentro.
Movimento...
Nem tudo pode invadir de fora pra dentro...
nem tudo de dentro
é aceitável fora.
O que está mais por dentro
É o parto que
Mais demora...

domingo, 19 de setembro de 2010

Boneca de Carne


Tive muitas bonecas na infância...de pano, de plástico...falantes ou mudas...vestidas e nuas...brasileiras e internacionais.
Adorava uma coleção de pequenas bonecas de borracha, com os cabelos de nylon muito bem feitos e diversificados, elas eram nuas...elas não ESTAVAM nuas, elas eram nuas...elas tinham diferença até de nuance de pele de uma para outra. Lembro que no dia 12 de outubro de 1982 (lembro perfeitamente da data por que era dia das crianças e eu tinha onze anos) por algum motivo meu pai não quis ceder ao mimo de me dar mais uma de presente, alegando eu não ser mais criança. Hoje penso: Que criança quereria bonecas nuas? Mas eu não via sensualidade nelas, ou se via, não sabia.
Eu tinha também uma coleção que era muito importante para mim, que era dos países que meu pai havia passado, em cada estação ele me comprava uma boneca.
Mas minha paixão era uma de pano, com vestido quadriculado de branco e laranja. Ela era uma boneca grávida. Quando levantava sua roupa, abaixava suas “ceroulas”, ela tinha uma barriga de pano que abria através de um velcro, e um pequenino bebê de pano, saia do seu ventre. Fiz muitos partos, amamentava, cuidava e quando terminava, guardava de novo o bebê de pano dentro da barriga.
Uma que meu avô me deu, eu guardei na caixa e nem tirei o plástico que vinha prendendo o cabelo, de tanto zelo que tinha por aquele presente.
Fofoletes...maezinhas...artesanais das mais lindas, minúsculas e imensas (uma maior que eu).
Boneca...
De carne...
Fecho os olhos AGORA, e imagino um bisturi me abrindo. Uma mão confiável tira de meu ventre, uma a uma. Os seus cabelinhos de nylon estão com sangue...as peladinhas são a únicas que já saem peladinhas. Elas não param de nascer, são dezenas...dezenas, dezenas...como cabiam todas dentro de mim?
Final: Minha barriga foi costurada. Olho pra mim e percebo que esse parto durou quase 40 anos. E eu sou agora a boneca, não de pano, de carne, com o ventre costurado e talvez vazio.
Pego o bisturi dessa mão confiável e desesperadamente e sem anestesia, reabro minha barriga para conferir: fato, não há nada além de um pequeno espelho. Eu olho para ele e ele olha para mim. Minhas próprias mãos procedem essa cesariana.
Coloquei o espelho cuidadosamente em minhas mãos para olhar melhor, e me vi por fora em cada pedaço, e repentinamente ele começou a me refletir em todos os tamanhos e idades, começou a refletir meus órgãos internos, a começar do meu coração pulsando, as artérias como rios de sangue, o pulmão respirando como uma floresta, meu sistema digestivo me irrigando e me provendo...toda minha natureza interna fluindo e saudável.
O espelho voltou a me refletir por fora, e para minha surpresa, eu estava tudo em seu devido lugar. Igual.
Resolvi então me reconstruir. Me cortei em pedaços, separando cabeça, troncos e membros. Não posso esquecer de alguns órgãos que eu não quero mais que fiquem guardados: removi meu coração...calma, ele não vai parar de pulsar, o útero e os pulmões.
Recosturei meus pés na minha cabeça. Para que eles tenham tempo de obedecer meus pensamentos sem passar por exemplo, pelo coração.
Uma das mãos, a direita, coloquei dentro da boca, ela sai quando eu falo. E quando ela sai, tem meu coração pulsando costurado.
E esquerda recosturei no lugar certo, lembrei que sou uma canhota, e ela não funcionaria em outro lugar. Ela segura o meu útero. E tudo que crio, passa a sair dele. Tudo que me ataca, ele devora e converte a filhote.
Meu pulmão coloquei em um jardim repleto de plantas selvagens e sensíveis como avencas e violetas, mas também brutas bromélias e espadas de São Jorge. Ele ali vai aprender a respirar livre e não mais estar algemado as pressões do meu coração ou meu corpo.
Trabalho feito, peguei o espelho com as mãos donas do útero. Me olhei desmembrada e singular. Letras saíam do meu coração. Meus pés me guiavam com razão. No jardim, meu pulmão livre trocava ares com as plantas. Não houve rejeição nem sangramentos. Me encaixei a peruca branca de nylon de uma das bonecas peladinhas, o vestido quadriculado da de pano, entrei em uma das caixinhas de acetato: a da boneca de Bruxelas. E a tal mão segura me colocou na minha estante branca, no meio de todas as minhas bonecas. O espelho na tampa do acetato.
Eu agora de frente para essa estante, pego essa caixinha e olho para esse espelho. Me vejo de novo inteira. Mais singular que nunca. Agradeço a essa mão que me ajudou, e peço para me deixar a disposição o bisturi, caso eu queira me reconstruir novamente.
Saio de costas andando, com a maternidade da de pano e a liberdade das internacionais e a alma de minhas bonecas nuas.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

costela


Desculpem queridos, mas me libertei! Descobri que não vim das suas costelas. Não quero carregar o pecado original, muito menos quero esperar o guerreiro voltar, tecendo um enorme tapete que não termina nunca.

Entendi que todos nós carregamos grilhões invisíveis, e cerramos os olhos todas as vezes em que um filho nasce e consentimos que esses grilhões até se multipliquem.

Entrei em um estado, em que eu compreendi que 95% do que falo, não vem de mim, vem dos meus pobres antepassados, que lutam dentro de mim para que eu possa libertá-los. E conhece-te a ti mesmo, falou claramente o nosso profeta, cujos forças foram massacradas por aqueles, que tiveram a falta de decência de ilustrar Jesus matando Hades, e libertando a todos do inferno, mostrando que sempre temos apenas 2 saídas e 2 forças opostas, duas torres a serem bombardeadas. Eu tenho, como a todos vocês, um vasto universo interior, disposto ao um novo Big Ben para separar todos os meus independentes fragmentos que foram forçadamente acorrentados uns aos outros.

Além de não ter vindo da costela, não vou permitir que Atenas me puna, e faça com que a essência dos meus olhares, transforme os homens em pedra. Tenho dentro de mim todas as guerreiras, todas as deusas da mitologia, todas as prostitutas de Pompéia, Oshóssi e Yansã, Santa Barbara e Santa Clara, Maria e Madalena, minha avó e minha mãe...todas que morreram decapitadas, degoladas ou esquartejadas. Elas estão aqui e não querem mais se calar. As que apanharam, as que se prostituiram, datilógrafas, professoras e além da Joana, vou tirar a vocês todas da minha fogueira.

A fogueira abrandada mais ainda existente... a fogueira mais competente por se fazer de invisível, não me coloco mais a disposição para o segundo plano.

Sim, eu posso estar enlouquecendo, pois na fervura das minhas idéias, expulso de mim todos os personagens ruins que me inflluenciam, tudo que me faz andar sentindo um enorme peso nas pernas. Descobri que o nosso protótipo teste, tinha asas, que foram podadas vagarosamente em cada passagem da história, a omissão deste fato, faz de mim uma réptil, uma cobra, e se isso acontecer, eu volto, e encorajo novamente a nova Eva comer a maçã, esclarecendo que está ainda dentro dela, o paraíso.

Animus




Eu acordei triste e fantasiei ser viúva,
ele compreendeu e se fez ressucitar.
Na alegria virei rainha
ele como bobo da corte
idealizou um momento palácio-lar
Chorei e ele virou minhas lágrimas
Cantei e ele só dançou
Solucei e ele foi meu lenço
Ele com raiva virou um leão...
e eu a leoa sem pestanejar
virou mendigo
e eu fui junto esmolar
virou pedra
virei ar
virou peixe
virei mar
e por aí vamos vida a fora
ele homem crescendo
eu mulher a voar




Ensaios



Norman começa a agir de acordo com o que considera ser “sua principal iniciativa”, aquelas que cessariam todos os problemas: parar de fumar maconha, e ser monogâmico.
O seu egocentrismo, e talvez ignorância, não o permitiu a contemplação de um conflito como um todo: passado, presente, futuro, culturas, complexos de dois seres.
Paro por aqui a minha explanação sobre o capítulo (Ensaios de Sobrevivência – Daryl Sharp) para falar o que eu senti. Senti que não sabemos o que é amor. Damos esse nome a uma projeção de nem sabemos o que. Não refletimos e não temos cultura interior. Somos simplistas e superficiais.
Procuramos o casamento pela nossa cultura, e nossa cultura nos faz acreditar que a função do casamento e de nos completar e nos sentirmos “inteiros”, e como ser inteiro se grande parte de nosso potencial está resguardado em uma grande caixa de ferro, cujo apenas os sonhos e as neuroses têm poder de abrir, e nesse sentido, a frustração é constante, por ser impossível a associação de dois elementos infinitamente mais complexos do que simples enzimas, o que prova, que acima de tudo e em contraponto com nosso egocentrismo, gritamos com pequenas atitudes: somos simples e banais! Na cegueira total de que todo universo exterior, é uma projeção do nosso interior. O simples exercício é amar até o que não é nossa projeção. Creio que isso só é possível, quando nos conhecemos profundamente, dissecamos nossas forças, medos, complexos e prazeres como um todo, para que nosso ego não aja como um simples espelho, que só quer refletir o que temos por dentro.
Lembro que no fim do meu primeiro casamento, um sonho me encorajou a me separar, chegando a me dar uma sensação física de liberdade, sonhei que um “Padre”, cortava uma corda que me amarrava a ele, e lembro que senti isso fisicamente, sorrindo como se estivesse voando.
Estou entendendo agora, o quanto nossas forças mentais cultuadas, nos arrastam para que sejamos seres simbióticos, e como, a pobre mente, se esforça, grita e até nos dá remédios para essa libertação.
Se o amor pode até vir a ser um problema, a cultura do conhecimento psíquico, pode ser uma libertação. Precisamos procriar. Precisamos nos unir, montar família. Como apagar toda história de vícios que nos levaram a crer que esse conjunto esdrúxulo de regras, chamado “Moral” é a única força que perpetua nossa espécie? Essa simbiose nos foi útil para manter o fogo, descobrir a roda, aquecer do frio, manter a caverna e suas atividades que eram regradas pela força física necessária (hoje inútil), evitar infecções e morte de uma fêmea grávida...hoje somos independentes. Fica a pergunta: Somos? Até que ponto? O que é ser inteiro?

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O som do silêncio

Não discrimine o ócio
que um dia pode ser seu!
O que aparenta morto
ou transpira tristeza
é carcere de plebeu
que caminha pra realeza
Sem pena do homem cabisbaixo!
Não rogue pelo que ele perdeu!
No aparentemente sinistro
há corpo quieto e mente acesa
dissecando as entranhas do seu "eu"...
Silencia-te durante sua riqueza!
Fecha os olhos e ouve o silêncio!
Reflete sobre o que é realmente "seu"
Ajusta os trilhos!
Pensa no amor de sua mãe
e grite pela paz dos seus filhos!
Peça perdão!
Demonstre para a vida
toda a sua gratidão!
Transmita para os seus amigos
que cada passagem tem um som,
e sempre se encontra um abrigo
na sinfonia silenciosa da reflexão

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Sexo e Limites

Os fatos são reais, talvez eu tenha acrescentado com o passar dos anos minhas próprias fantasias...Foi a primeira morte que eu tive contato em minha vida:
Ela pulou do 12° andar, tinha apenas 32 anos, deve ter sido mais ou menos em 1979,escutei a filha contar que quando chegou, o braço dela estava pendurado no balanço, o rosto teve que ser enxertado de algodão para ser colocado no caixão, a filha beijava seu rosto na hora do velório e o algodão colocado pra rechear...afundava...Ouvi: Haviam fezes para todos os lados...o intestino explode na queda....Esses detalhes, ouvi na época com 8 anos de idade.
Poucos anos mais tarde, soube que na época, seu marido a estava traindo, ela começou entrar no jogo, inventava (ou não) histórias para fazer ciúmes, ela, foi literalmente, enlouquecendo, pirando pra valer...até culminar nesse fato. Ninguém sabe até hoje se ela se matou ou foi morta, a filha me disse anos mais tarde, que o pai a trancou no quarto nesse dia, antes do acontecido.
Um pouco mais tarde soube de outras situações onde a traição fazia parte da rotina (tanto das mulheres como dos homens)...soube de histórias dos meus avós, tios, pais...nossa...rotineiro.
Não tem moral da história, não quis dizer que trair leva a morte ou à loucura, mas sim que as pessoas têm que conhecer os seus próprios limites, e os limites daqueles que nos cercam. Sou amoral em comentar que trair é uma opção.Que pode oscilar de destrutiva à terapêutica, dependendo da estrutura da pessoa, de sua educação, independência e etc...principalmente...poupem as crianças...conflitos sexuais, todo mundo tem, devemos resolvê-los da forma que a nossa civilidade restrita permitir,consciente de que é um caminho íntimo, particular...
Hoje percebo que fui sorteada, não conheço ninguém que tenha convivido com assuntos de sexo tão cedo, digo, conviver com histórias de traição, que em mim...doíam muito,dispensando os detalhes dos porquês. Algumas destas pessoas, casais, estão juntos até hoje:
Meus avós morreram um poucos anos depois do outro, lamentando o amor que não se dedicaram, dizia ela: Quero nascer de novo, para comprar uma camisola bem sensual e esperar ele todo dia de noite,...
Meu tios ainda dividem as contas, os problemas dos filhos,  e poucas alegrias.
Meus pais...juntos até hoje, sempre fizeram jogos de ciúmes (que provavelmente lhes causavam prazer), têm uma lista de problemas...mas eu nunca vi duas pessoas com mais afinidade...e hoje em dia...aos seus 60 e poucos anos, não vivem um sem o outro.
Eu, no meu primeiro casamento, o que mais passei foi por traição (aquilo que eu dizia que nunca suportaria...não precisa nem explicar por que).
Conviver com toda essa realidade desde a infância, me transformou numa moralista, e assim permaneci por muitos anos de minha vida, olhando para todos do alto do meu pedestal inalcansável. Eu tinha desejos...principalmente na fase mais precária do meu primeiro casamento, mas os massacrava em algum espaço abandonado da minha consciência, não sei bem se pra poupar a dor alheia ou para me manter no tal pedestal.E também, não tinha mais nada que classificasse o meu ex marido, como um bom companheiro, absolutamente nada, afinidade, carinho, zelo, amizade..não existia nada, sequer uma “traição terapêutica” surtiria efeito, mesmo por que, eu conheço meus limites de auto-aceitação, e trair não faz parte do meu vocabulário conjugado em primeira pessoa. O que nunca foi por exemplo o caso dos meus pais.
Traição, desejo...o que é trair? É burlar as normas, sexuais, pré-estabelecidas em uma relação. Não fui eu quem estipulei essas normas, nem meus pais, tios ou avós...Não foi o homem primordial (primitivo), também, esse não possuía, obviamente essas normas, haviam desejos, e esses desejos eram cumpridos, antes que se tornassem fantasias.
Estatisticamente falando, os homens executam com mais facilidade seus desejos do que as mulheres, e as mulheres, por nem sempre executá-los, são mais fantasiosas.
Ninguém compra uma revistinha de homem pelado pra uma adolescente, é feio...ainda nos tempos modernos, quando o desejo vem, as meninas ainda tem que “imaginar”...a imaginação não deixa rastros, não deixa provas, por isso vamos nos tornando mais sinestésicas, menos visuais.
Mulher quando trai, se justifica (falsamente, pra limpar a consciência) dizendo que não possui afeto suficiente, a meu ver, a falta de afeto, é uma desculpa, uma justificativa pra executar o desejo já pré-existente. Precisaríamos nós dessa desculpa?Tão honesto e real da parte dos homens (de certa forma) trair pura e simplesmente para cumprir seus desejos. Sensato lembrar que somos realmente animais, com pretensão de ser algo maior...por causa do nosso “presente de grego”: A razão.
Parto hoje do princípio, que desejo não realizado vira fantasia, a fantasia é uma realidade inexistente, infinitamente melhorada. Fantasiar e executar essa fantasia, é a mesma coisa que ler um livro e logo depois ver o filme desse livro (o livro é sempre muito melhor), ou seja, nada supera a fantasia.
A maioria das fantasias, só funcionam sendo fantasias, depois de executadas o desejo morre, ou por que foi cumprido, ou por que não correspondeu às expectativas...ou podem até ser destrutivas.
Outra questão: Suporto o peso da fantasia cumprida? Eu não suporto...A tal moça de 32 anos não suportou, muitas outras conviveram bem com ela, algumas até tiraram proveito, aprenderam...fizeram outros sentir dor ou não.
O casamento é uma opção social, que a meu ver, carrega 2 acordos paralelos:
1-Um acordo superficial ou oficial, que é este que a sociedade escreveu para nós, que carrega consigo os conceitos atuais de fidelidade.
2-E um íntimo: Que são as aceitações, os jogos, que os casais vão criando, conscientemente ou não, verbalmente ou não, esses são mais direcionados pelos nossos instintos do que pelo “homem social” que construíram para nós. Esse acordo é o “Perturbado”, e leva fama de desonesto, por que este é o que te impele a trair, a cumprir o desejo ou oscilar em cumpri-lo, ou criar artifícios para cumpri-lo sem culpa.
Desci do meu pedestal depois que cumpri alguns dos meus desejos...os decodifiquei, e sei hoje, manter minhas fantasias e desejos, num lugar cômodo e consciente. Me mantenho satisfeita...isso é importante...a satisfação têm que prevalecer de alguma forma, sexual e afetivamente falando.
Mas procuro compreender, aceitar, não julgar ou exigir como antigamente.
Não suporto comentar sobre “homem e mulher” de maneira simplista como num livro de auto-ajuda...patético comentar do excesso de sensibilidade feminina e dos protótipos de machismo, se não somos iguais, hoje, é por culpa nossa...se as diferenças se iniciaram por que a maternidade, primitivamente era responsabilidade feminina, hoje, tudo pode ser evitado, mas preferimos ainda criar nossos filhos de forma diferente, por que assim aprendemos...
Ensinamos eles a serem sociais, sociáveis, educados, comprometidos sexualmente...e não sabemos até hoje lidar com os nossos próprios instintos de forma amoral porém fiel. Fiel sim, as nossas origens, biologia, química...conflito...tão complexo e tão simples se pensarmos que em certa altura de nossas vidas, o que conta, são outros sentimentos e prazeres.

sábado, 14 de março de 2009

Arma ou remédio

Você reflete?
Tudo que penso é libertação:
Ignoro o trivial
E disseco a aberração
Abomino ser fruto cultural
Amo gente pelada
Que não guarda nada
Só o povo da mente safada
Vejo o cego
Grito pro surdo
Ouço o mudo
Eu podia estar gritando
Se tem defeitos é meu amigo
Podia estar me drogando
Do pouco eu não quero nada
Podia estar deprimida
O certo é propriedade do tédio
Eu podia estar chorando
Mas escrever é minha arma-remédio

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Um sonho...

Num sonho, na beira de um penhasco, vi o tempo passar. Agarrada nas pedras e com medo de cair , vi civilizações indo e vindo, como se não fosses apenas esses últimos 32 anos os meus, como se não fosse apenas esse meu lugar, como se não fossem apenas esses meus amigos, filhos ou irmão.
Alguém me falava de assuntos os quais não compreendo: geografia, história, política, religião de diversos povos...em um sonho que provavelmente durou segundos, tive a sensação de compreender e fazer parte do universo, tive a sensação de como expectadora ter admirado uma obra completa e ter compreendido sua beleza e complexidade, não me lembro dos detalhes, apenas da sensação de estar chorando, de estar me sentindo pequena por ter compreendido o quanto do mundo eu perdi e o quanto eu não tenho consciência, o quanto virá ainda fora do meu controle...lamentei por todas as descobertas que não presenciei e pelas que não vou ter acesso.
Daqueles sonhos que se contarmos para um religioso, vai ver um fundo transcedental, para o cético , um fundo cientificista, um médico, constatará minha loucura, minha mãe pressagiará minha morte.Acordei e o que tenho de concreto são as tragédias dos meus últimos 32 anos, não as da humanidade...se perpetuou apenas a sensação de ainda estar em um abismo branco, me agarrando nas pedras para não cair, só que no sonho um interlocutor me explicava as coisas e me fazia companhia...prefiro não questionar qual sua origem...ele pode ser uma força ou uma alucinação...pois que seja! Sei que ele é algo que me mantém agarrada nas pedras e me ajuda a não cair, faça ele parte ou não da minha imaginação.

O resto









  












Tudo o que você quer

é a fruta podre
que restou no meu pomar.
Aos teus olhos "grandes coisas",
para mim, só o que me resta a doar...
... Já doei minha alma,
e ela está por aí a vagar,
...já doei meu suor,
só sobraram lágimas no lugar,
...doei de dia meu carinho,
recebi tapas ao luar.
O suco que rejeita,
já se foi na fruta hoje seca...
Tudo o que você quer
é o fruto podre
que restou no meu pomar.
No sumo todo se foi,
minha capacidade de amar.
Leva o resto:
Esse meu corpo,
cuja alma encontra-se enterrada
em algum outro lugar!!!

Instintos

Dissertação comum:- O que é o amor?
Obra de arte, que depende do expectador:
para o pragmático, amor não é sexo,
para o eclético todo amor vale a pena,
para o poético qualquer clichê rimado tem nexo,
para o insensível é algo patético,
pode ser ridículo, cético... vazio,
ter ou não explicação
-Onde começa?- Onde termina?
Pode começar no céu e terminar no chão
Passar do diálogo para o discurso,
e desse, para a discussão (antítese do gemido),
começo do gozo,
início para o monólogo,
estopim do grito!!
A ordem dos fatores não altera o produto:
devaneado pelo sensível
e arma tosca na mão do bruto...

Procura

Me deram essa vida insípida,
me jogaram neste mundo em que me castro,
marcaram em mim esta cara ríspida,
e ainda exigem que eu seja um astro.

Em meu mastro puseram uma bandeira
e me deram regras a seguir.
Quer eu queira, quer não queira,
de mim mesma vão me banir...

Por isso eu fujo de mim,
me escondendo nas noites,
e me envergonho de ser assim...
...ai meu eu!!! Prá onde fostes?!

-Eu fui pra lua,fui à rua,
fui a lugar nenhum.
-Fui em todos os lugares,
não achei amigo algum....

Origem e Destino

Não sei de onde se origina
O que sinto por ele
que é brinquedo de outra menina
mas apesar de tudo
sei pra onde se destina
visto que o amor dele ou não existe
ou é cego, surdo e mudo
Se destina ao esquecimento,
a um breve cruzar de esquina
Como o quadro na parede:
Cores fadadas ao empalidecimento
Mas deixe estar
Todo sentimento amadurece
E fruta madura
Ou você consome
Ou você a esquece

Pode dizer que não

Tanto nega que me deseja,
mas sua boca traidora
insinua para a minha
que sonhando me almeja...
Ah se eu pudesse!!
Deixaria com ela combinado:
provar que seu corpo,
enlouquece ao meu lado!
instigados pela minha boca,
teus olhos te trairiam,
começando um complô
olhando para onde não deveriam...
atravessando as barreiras da roupa
odores cítricos sairiam do seu peito
e outras partes te delatariam..
apontando que não sou louca...
e que vc é humano!
pronto!
Quando o corpo diz que sim...
inútil dizer que não!
O instinto sexual,
não deixa o amor calado,
fala com sua própria linguagem
de torpores, monossílabos...
gemidos sem nexo...
te mostraria seu corpo espelindo a alma
nosso amor materializado
no êxtase físico do sexo!

Carta aos meus desejos e loucuras

Profanos! Quase épicos!Mantenham o disfarce! Me permitam que eu passe o dia-a-dia por trás da minha máscara de santa.
Deixem minha crueldade enclausurada no meu âmago noturno!
Controlem-se para que eu possa sorvê-los dentro da minha “falsa sanidade”!
Limitem-se ao sarcasmo enquanto eu me faço de ingênua ou quase estúpida.
Se aquietem! Junto de vocês tenho que enclausurar minha luxúria e minha inteligência pagã...
Louvo! Pois são pedestal invisível da minha essência.
Tormentos internos e sob controle que me diferenciam dos olhares normais...
Protagonistas da minha egofilia,
Exterminadores do meu tédio,
Companheiros da minha solidão,
Musas da minha criação...
...imploro que se mantenham nessa linha tênue entre meu inconsciente e minha ação!
Não adormeçam, mas não acordem, permaneçam em transição.
Desejos e loucuras, negocio nesta carta que sejam apenas o meu diferencial,
Pois percebo que conspiram para migrar,
Do antônimo para o sinônimo
Da minha própria perdição...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

अ camisola

A elegância são os modos, e não o que se tem, aprendi isso observando a minha avó...pra mim, a tradução de simplicidade e carinho.
No final da década de cinqüenta ela já estava casada e já tinha dois filhos, pobre...morava no Centro de Niterói, porém passados os anos, conseguiu se aposentar como inspetora do Instituto Liceu.
Trabalhando como inspetora, já conseguia realizar seus pequenos desejos de elegância, sempre de salto alto, meia calça preta com emenda...onde passava ficava o cheiro de Fleur de Rocaille, fazia suas próprias roupas como as das melhores vitrines. Quando eu era criança, ela não gostava que ninguém me visse antes que ela passasse um blush em minhas bochechas.
Além de sua vaidade simples e natural, guardo dela as lembranças de uma criatura que amava sem fazer força, que perdoava como se não houvesse nada a perdoar, que doava sem esperar nada em troca e que por vezes se permitia rir e cometer erros comparáveis a de uma criança, ou de uma mulher...
“Se me perguntarem se sei fazer um bordado, primeiro digo que sei, depois eu aprendo”. E aprendia...Aqui agora escrevendo, me dei por conta de por que ela sofreu tanto ao ter que vender a máquina de costura, me chamou chorando envergonhada, dizendo que me disse a vida toda que ia deixar a máquina pra mim e ia precisar vender. Falta de sensibilidade a minha de não compreender o porque...por que tudo começou por causa de uma camisola:

Passeando no Centro de Niterói ela parou na frente de uma boutique chamada “A Sedução”, era uma loja muito cara, onde as noivas ricas iam montar seu enxoval, parou extasiada em frente a uma camisola longa, branca, toda bordada em ponto Paris e nesse momento, entrou uma mulher muito elegante na loja, comprou exatamente aquela camisola, pagando em dinheiro. Foi pra casa pensando na vida, nas suas restrições e o que poderia fazer para vencê-las.
Começou a aprender ponto Paris, poucas costureiras sabiam com perfeição...começou a fazer e vender para a redondeza, até que “A Sedução” a chamou para ser costureira de lá.
Ela começou a produzir as camisolas iguais aquela que ela havia “idolatrado”, já tinha a sua? Não...
Ela juntou dinheiro, se arrumou, entrou na loja como cliente e comprou a camisola que ela mesma costurava.
Ela não parou mais. Tudo que ela modestamente queria, ela conseguia...nunca teve fartura, mas sempre gostou do capricho.
Envelheceu sem se preocupar em deixar os cabelos brancos...O que motivou ela foi uma vaidade? Que diga que sim quem não a conhecia...
Quando eu tinha seis anos, ela morava na Moreira Cezar, um porteiro que era amigo dela (como todos que a cercavam), foi pegar um bujão de gás e não me lembro por que motivo, o bujão explodiu em suas mãos e minha avó estava perto. Vendo o amigo sendo carbonizado, sem poder fazer nada, ela rasgava a própria roupa como se estivesse rasgando a dele...ela já não tinha mais apego algum...Já havia criado filhos, netos, filha dos outros e ainda tinha tempo e disposição para vender quentinhas, distribuir as sobras para as crianças de rua.
No tempo em que começou a trabalhar, e se tornar vaidosa, grande parte das irmãs (eram 16 irmãos ao todo), parou de falar com ela: Um cunhado a assediava, ela evitava mas também não contava para não fazer escândalos, porém quando descobriram, ele para se defender a acusou, toda a família ficou do lado dele, por que sabiam que ela não tinha um casamento perfeito, trabalhava fora, já havia tentado se divorciar...então: A culpa era dela...
Quem diria que canalhas envelhecem? Quando minha avó morreu, ele foi o cara que fez a tal da oração em seu túmulo e todas as irmãs compareceram, pois em suas velhices voltaram a se falar. E ela, quando teve uma oportunidade de voltar a conviver com as irmãs, voltou sem o menor rancor. Ela enterrou algumas e alegrou a vida de todas, chegando sempre para visitar ou recebendo em casa, sempre com um bolo fresco, um prato salgado e um sorriso.
Nos seus últimos 2 anos de vida, passei muito perto dela...já viúva, passava seu tempo pintando, já lia os livros de Zibia...Eu ia tomar café de tarde com ela quase todos os dias...Foi a primeira e mais dolorosa perda que tive em minha vida, mas eu aproveitei minha avó...e me aproveito diariamente de nossas boas lembranças, de sua força...Absolutamente todos que chegaram perto dela durante sua vida sentiram imediatamente a sua bondade. Nilcéa, o amor da minha vida:
Trabalhou muito, não tinha uma religião oficialmente, não ouvia músicas, não lia livros, não pode consumir o que mereceu durante a vida, mas quando eu penso em minha avó ouço melodias, sinto cheiros escrevo romances e penso em Deus.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Carta de uma ignorante


A mim, neste momento, pouco me importa meu sexo, cor, religião, de onde vim, meu grau de inteligência...pois se a banalidade de nós mesmos e de nossos objetivos como seres humanos, nos tornou excepcionalmente importantes, no sentido de que na natureza nada se perde, tudo se transforma...ao menos assim alcançaremos nossa “redenção”, nos transformando em gases ou vestígios minerais, que em milhões de anos ajudarão a iniciar uma nova forma de vida, quem sabe menos ignorante e primitiva que a nossa.A procrastinação está finalmente nos levando ao épico e cinematográfico fim do mundo, porém, o bom, é que o fim de tudo, criará personagens fantásticos, mitos, religiões, teoremas à respeito do nada, como sempre ocorreu nos momentos de crise.Assistamos a este espetáculo, quem sabe na última vã tentativa de decodificar o caos ao tentar compreender a vida...relaxem, vai ser bom, pra mim particularmente vai ser engraçado assistir neuroses coletivas, pessoas se abraçando aos seus bens materiais ou se livrando deles, pastores vão montar até corretoras para venda de terrenos no céu, exus vão idealizar imagens paradisíacas do inferno, ateus vão abraçar suas famílias como sempre o fizeram...Na minha crítica desse novo caos, avalio que temos sido meros parasitas com pretensão de ser algo maior. Os mais perigosos de toda cadeia alimentar, elementos corrosivos. Usamos o chavão de que “somos a imagem e semelhança do criador” para metaforizar “o filho da puta principal de uma zona, que manda no estabelecimento e come quem quiser”...não me chamem erege, não passo de uma ignorante...Questões religiosas, morais, físicas, químicas, talvez nada possa salvar boa parcela da humanidade, e afinal, pra que agir se a morte sempre foi uma certeza?Tento também compreender minha própria ignorância, minha indulgência, ao apenas pensar, e pensar apenas quando a situação é limite, nos por quês do caminho ao fim da grande morada (nosso parasitado).Estamos chegando lá, nesse lugar e tempo onde os motivos de discórdia, vão voltar a ser os primordiais (a tal da escassez). E nesse tempo, provavelmente, as vaidades e egocentrismos, vão morrer de fome por falta de matéria-prima que as alimente.Certamente a vida sempre se adapta. Os cheiros, os consumos, tecnologias de nossa sociedade, são um vício, uma realidade que passou a ser a única. Lutar pela vida, não é mais algo orgânico, um turbilhão de culturas incorporamos, e estas passaram a ser a própria vida. A nossa “evolução” genética, fez com que nos tornássemos os filhotes mais dependentes de assistência, carinho, dinheiro, internet, tv a cabo e etc... Julgamento e análise não são palavras com o mesmo sentido. Analiso que o desconhecimento e a ignorância, a busca de respostas, a sede do racional, criou e deturpou mártires, matou homens, vendeu espaços no céu (símbolo este do desconhecido), transformou escritos históricos em metáforas que induzem à subserviência e conservam a ignorância. Desqualificou a matéria dentro da sua importância para a sobrevivência. Trouxe angústia, depressão e seus placebos sociais. Omitiu o óbvio: Termos todos a mesma origem.Induziu ao inusitado: Teremos todos o mesmo fim.